Como a chegada de um bebê transforma o cérebro de mães e pais – Parte I

30 de abril de 2014   Por:    Maternidade, Ser Mãe   0 Comentários

Há muito já se sabe que pais e mães influenciam fortemente seus filhos. Novas pesquisas mostram, porém, que essa história tem outro lado: a conexão afetiva com os pequenos afeta o funcionamento neuroquímico das figuras parentais, o que deflagra alterações na maneira de pensar e agir. O nascimento de um bebê coloca os pais diante de novas responsabilidades e emoções – e essas experiências reforçam a ligação entre cada um dos pais e o recém-nascido. O fenômeno, porém, não depende dos genes, já que também se dá em caso de adoção. Nem a gravidez o explica completamente. O fato é que os desafios de cuidar dos filhos fazem com que áreas do cérebro de homens e mulheres sejam transformadas com o objetivo de facilitar a complexa tarefa de ser pai ou mãe.

o cerebro de uma nova mae

Na cabeça da mamãe

Embora algumas mulheres se queixem de perda de agilidade mental durante a gravidez, estudos recentes sugerem que a maternidade, na verdade, está associada ao aumento de matéria cinzenta em áreas envolvidas com o cuidado dos filhos, o que as torna mais atentas a ameaças e corajosas para buscar alimento e tomar decisões na iminência de algum risco.

Com o segundo filho a caminho e crescendo a olhos vistos, Liz está passando pelas mudanças opressoras da gravidez. Ela sente que sua barriga parece inacreditavelmente maior. Dormir bem é coisa do passado, agora que ela carrega vários quilos a mais na cintura. Além disso, sofre com dificuldades digestivas e azia após a maioria das refeições. Mas ela não é uma futura mãe qualquer no fim da gravidez. Ela é também neurocientista, empenhada no estudo das mudanças no cérebro materno – na verdade, ela é coautora deste artigo. Embora isso não alivie seus problemas gástricos, ela se consola ao observar a quantidade sempre crescente de novas pesquisas que revelam as alterações marcantes – e geralmente positivas – no sistema cerebral de uma mãe.

Porém, o “cérebro maternal” surge gradualmente, e enquanto esse processo ocorre há mulheres que se queixam da sensação de “cabeça vazia” e da impressão de estarem ligeiramente confusas. De fato, resultados de alguns estudos até revelam leve encolhimento do cérebro durante a gravidez. Mas há compensações. Pesquisas sugerem que a maternidade aperfeiçoa alguns aspectos cognitivos, melhora a resistência ao estresse e aguça aspectos da memória. Obviamente não é possível fazer comparações com mulheres que nunca tiveram filhos, pois a comparação, nesse caso, é em relação à própria pessoas – antes e depois da gravidez. Ou seja: uma mulher com filhos não será necessariamente “mais esperta” que outra que nunca foi mães, mas a primeira tem grande possibilidade de ter desenvolvido habilidades de que não dispunha antes da gravidez.

O que impressiona os cientistas é o fato de o sistema nervoso se reorganizar para formar uma nova mãe transformando o organismo autocentrado em outro preocupado, antes de tudo, em cuidar de seu bebê. Tudo o que o cérebro o faz serve para estimular o crescimento de novos neurônios, aumentar o tamanho de certas estrutura e criar ondas de poderosos hormônios para defender a fisiologia. O resultado é um cérebro diferente e, sob vários aspectos, mais capaz de driblar os desafios da vida diária, mantendo o foco sobre a criança.

Gatilho Sensorial

Desde as primeiras horas de vida o bebê – ou pelo menos a maioria deles – faz o possível para atrair e manter a atenção de quem cuida dele. As sensações provocadas pelo som do choro, pelo odor de seu pequeno corpo e por gestos, como o de agarrar com força dedos ou cabelos dos adultos, invadem o sistema nervoso altamente sensibilizado da mãe. É como se a presença da criança estimulasse seu cérebro, levando-o a funcionar de forma mais rápida.

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Entre todos os sentidos, o olfato é o que desempenha papel principal na reprodução. Mesmo sem se dar conta conscientemente, as fêmeas confiam nessa capacidade, desde o primeiro instante, para ajudá-las a escolher o parceiro com quem terão filhos, até o momento de o bebê desmamar, quando o olfato, então funciona como uma forma de comunicação entre mãe e filho. Um exemplo extremo de poder desse sentido é conhecido como efeito Bruce – fenômeno pelo qual certos odores induzem ratas prenhes ao aborto. Se o parceiro desaparece depois da concepção e um intruso começa a rodear a fêmea, o cheiro do novo macho pode inibir a produção de hormônios chave, fazendo-a abortar. Caso contrário, é muito provável que o intruso acabe matando e comento o recém-nascidos, obtendo assim uma refeição altamente proteica e eliminando os genes do rival. Num tipo de “escolha de Sofia” para os roedores, a fêmea age friamente: é melhor perder os filhotes como embriões que como recém-nascidos.

o cerebro de uma nova mae 2-vertJá que há restrições em relação ao estudo minucioso do sistema cerebral humano, os roedores nos ajudam a conhecer melhor as mudanças que ocorrem em futuras mamães. É sabido que, quando as circunstâncias exigem, o cérebro dos mamíferos apresenta incrível capacidade de promover mudanças. Durante a gestação de uma rata, por exemplo, o sistema olfativo começa a produzir novos neurônios rapidamente. Pelo menos na teoria, essas células adicionais devem permitir que as mães se tornem mais competentes em reconhecer as pistas escondidas nos odores dos filhotes. Evidentemente, a forma como as mães reagem diante dos cheiros que reconhecem diverge bastante. Para ratas virgens, os recém-nascidos são mal cheirosos, mas quando ficam prenhes esses mesmos odores se tornam atraentes para elas. Segundo a psicóloga Alison Fleming, da Universidade de Toronto-Mississauga, no Canadá, também mulheres que se tornam mães apresentam esse sintoma. Analisando um universo de mães e não mães a pesquisadora descobriu que a probabilidade de as primeiras considerarem agradáveis os cheiros de bebês é muito maior, em comparação com as que não tiveram filhos.

Para transformar a percepção dos odores nas mulheres, o sistema olfativo utilizaria uma região conhecida como amígdala medial. “Essa área do cérebro pode agir como um centro para o sistema olfativo, transformando a informação que entra em conteúdo emocional”, afirma o neurobiólogo Michael Numan, da Faculdade de Boston. Ele ressalta que os estímulos olfativos podem ajudar na consolidação do vínculo mãe-filho tornando atraentes os aromas exalados pelo bebê. Não são raros os casos de mulheres que antes de terem o primeiro filho evitaram os odores de crianças de colo mesmo as da família. Mas após dar à luz descobrem que não têm problemas de aproximar o nariz das fraldas de uma criança para saber se precisam ser trocadas.

Morfina Maternal

O cérebro de mulheres grávidas ou que tiveram bebê recentemente também sofre metamorfose estrutural surpreendente. NO ano passado usando dados de imageamento por ressonância magnética, a neurocientista Pilyoung Kim, atualmente no Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, e seus colegas descobriram aumentos significativos de matéria cinzenta no cérebro de mães semanas e até meses após o parto. A matéria cinzenta, assim denominada devido à cor do corpo das células, é uma camada de tecido abarrotada de neurônios. O crescimento, segundo os cientistas, era particularmente visível na região medial do cérebro, nos lobos parientais e no córtex pré – frontal, áreas envolvidas nos cuidados com o bebê. As mães que tiveram maior aumento dessas estruturas mostraram atitude mais afetuosa em relação aos seus bebês.

amamentacao

À medida que o dia do parto se aproxima, mais hormônios poderosos entram em ação. Embora os principais atores nesse cenário sejam a oxitocina, que estimula as contrações uterinas e a liberação do leite, e a prolactina, que estimula a produção, outros hormônios coadjuvantes provocam mudanças no cérebro. Neuroanatomistas da Universidade Victor Segalen Bordeaux 2, na França, observaram reconfiguração estrutural intensa do hipotálamo – região do cérebro que funciona como um grande regulador dos hormônios associados a comportamentos emocionais básicos, como agressividade e desejo sexual. Os neurônios de uma parte do hipotálamo conhecida como área pré-óptica medial (ou mPOA, na sigla em ingês) tornam-se maiores e mais ativos. De fato, lesões nessa região podem impedir a manifestação do comportamento maternal.

Já o hipotálamo faz aumentar a sensação de prazer da mãe ao cuidar de seu bebê. Robert S. Bridges, da Faculdade de Medicina Veterinária Tufts Cummings, em Boston, e seus colegas descobriram diferentes concentrações de receptores opiáceos em ratas, dependendo se a fêmea era virgem, se estava prenhe ou amamentando. Mas o fenômeno se dilui com a experiência. Aquelas que tinham engravidado várias vezes apresentaram diminuição de sensibilidade aos seus próprios opiáceos, como dependentes químicos que precisam de doses cada vez mais maiores da droga para ficar “ligados”.

A analogia não é em vão. Os animais podem assumir comportamentos maternais simplesmente porque é bom. Muitas mulheres também relatam sentir muito prazer ao amamentar seus filhos. Depois que os ratinhos abocanham os mamilos da rata, ela recebe “uma injeção” estimulante de opiáceos. Mas o próprio corpo do animal impõe um limite. Enquanto os ratinhos sugam, a temperatura corporal da mãe começa a se elevar. Depois de certo tempo ela começa a sentir-se desconfortável e abandona os filhotes. Mais tarde, desejando outra “dose” de opiáceo, ela volta ao ninho, os seus bebês começam a sugar novamente e o ciclo recomeça. Além disso, os hormônios maternais podem tornar o cérebro mais flexível. No ano passado a neurobióloga Teresa Morales Guzmán, da Universidade Nacional Autônoma do México, mostrou que o cérebro de fêmeas lactantes é mais resistente aos efeitos de uma neurotoxina. Os hormônios da gestação parecem criar uma blindagem neural que protegem a mãe rata de danos que, de outra forma, poderiam comprometer sua capacidade de cuidar dos filhotes.

Esses, são alguns percalços que podem ocorrer enquanto o cérebro materno se reestrutura. Afinal, gerar um filho requer que a mulher ponha em risco sua própria saúde, segurança e sobrevivência para desenvolver habilidade de proteção de defesa da prole. Nesses cenário em que o cérebro é golpeado pelos hormônios da gravidez e pelas pressões da maternidade, desponta uma mulher mais eficiente e prepara para sobreviver. Nesse contexto, a compensação pelos aspectos adversos da maternidade não provém somente da ciência, mas também das emoções. E mesmo para quem estuda o funcionamento dos meandros neurais, como Liz, parece inegável que toda a neurobiologia do mundo seja ofuscada diante da inefável

ligação entre mãe e filho. A ciência pode explicar o cérebro material, mas há mistérios que vão além da biologia e são influenciados pelo afeto e por questões psíquicas – principalmente quando a mãe ajeita carinhosamente a manta em volta do queixo de seu bebê enquanto ele dorme em seus braços. Há nessa cena algo que nem sempre pode ser abarcado pela ciência.

Para ver o artigo na integra:

FONTE: Scientific American mente cérebro, nº 227

Por Craig Howard Kinsley, professor de psicologia da Universidade de Richmond; e Elizabeth Meyer, pós-doutoranda, pesquisadora do Departamento de Psicologia e do Centro de Neurociência da mesma instituição.

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